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Como a mídia cobre

        A partir do que comentamos até aqui, deu para notar que cada vez que um caso de feminicídio choca o país, o fazer jornalístico entra em ação. Para o público, que não acompanha a fundo o dia a dia das redações e as particularidades das investigações, a notícia já chega formatada. Mas o que acontece nos bastidores das redações? Como se constrói uma reportagem sobre um tema tão delicado?

      Por trás de cada manchete sobre feminicídios, há muito mais do que a frieza dos fatos e dos dados abordados. Há vidas interrompidas, famílias devastadas e, em meio a isso, profissionais que tentam transformar a dor alheia em notícia, sempre atentos à um senso de responsabilidade. Cobrir um caso de feminicídio exige, antes de tudo, delicadeza e sensibilidade. É essencial evitar que um ato de violência se transforme em um espetáculo, portanto, preservar a memória da vítima e o sofrimento dos que ficaram se torna, como pontuado anteriormente, a peça central que guiará a produção jornalística.

        O caso da jovem Vitória Regina, em Cajamar, exemplifica a dualidade entre equilibrar a notícia e a informação com a dor dos envolvidos. Para Rafael Saldanha, jornalista da CNN, o fundamental da cobertura do caso da Vitória foi seguir três pilares: precisão, cautela e sensibilidade. Ele fala com a experiência de alguém que acompanhou, dia após dia, os desdobramentos do caso, em meio a uma redação que tentava decidir o que, como e quando noticiar. "Se a gente vai dar a imagem dela, se não vai. Como que a gente vai usar? Que palavras usar?", questiona Saldanha, revelando o peso de decisões que, por mais simples que pareçam, carregam implicações profundas.

​​Reprodução: CNN Brasil https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/caso-vitoria-policia-civil-indica-coautoria-de-outros-elementos/

        Esses dilemas são enfrentados diariamente pelos veículos de comunicação, tanto na televisão, quanto no rádio e nas plataformas digitais. Rafael explica que as coberturas são feitas de maneiras diferentes, dependendo do meio em que serão veiculadas, mas que, em todos eles, o compromisso ético do jornalista é o mesmo: "A gente lidou da mesma forma que a gente lida com qualquer outro caso. Sempre com cautela, sempre com precisão e sensibilidade. Porque o feminicídio exige muito isso".

         Vale ressaltar, porém, que nem todo veículo trabalha sob essa lógica do imediatismo. Em programas como o Fantástico, da TV Globo, o tempo e o ritmo de produção é outro. Dario Leite, editor de texto da revista eletrônica, revela o esforço semanal para oferecer à audiência não apenas aquilo que já foi noticiado por outros portais, mas algo que acrescente e que ajude o público a compreender ainda mais a fundo as nuances do crime. "É pensar nessas informações complementares, não só necessariamente trazer um monte de notícias do que aconteceu na semana e trazer esse novo. A gente precisa ter uma coisa exclusiva, que justifique a gente entrar, porque a gente normalmente vai entrar depois de todo mundo", explica.

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Reprodução: Globoplay

          No entanto, por ter uma enorme visibilidade e um prazo mais longo de apuração em comparação aos portais hard news, o Fantástico tem uma responsabilidade ainda maior, pois não pode ser irresponsável ao levar informações equivocadas a milhões de telespectadores. No caso de Vitória, o programa construiu uma narrativa que seguiu todo o passo a passo da investigação, mas com espaço para humanizar e aprofundar as informações já obtidas sobre a vítima.

          Dario afirma que uma das partes mais importantes desse processo de apuração é conversar com os familiares das vítimas, para trazer um aprofundamento maior da situação. "A versão da Vitória só pode ser contada por quem conheceu a Vitória. Não pode ser contada por mim, pelo repórter, pelo policial. Só quem conheceu ela são os amigos e parentes", diz.

       É importante destacar que ouvir essas pessoas exige um limite delicado e fundamental, para não acrescentar ainda mais dor e sofrimento ao luto já vivido por elas. Segundo Leite, a sensibilidade está no jeito de perguntar e conduzir as entrevistas, tentando sempre ser o mínimo invasivo, para que os familiares possam entregar um relato pessoal, mas sem entristecê-los ainda mais. Cada um desses detalhes é pensado para que a reportagem de fato cumpra o seu papel informativo, mas sem desumanizar quem foi vítima de uma violência extrema.

        Cabe frisar também que a cobertura jornalística de casos de feminicídio não é apenas marcada por decisões éticas, mas por um trabalho muito intenso. Derick Toda, repórter e produtor do SBT, define bem a rotina de uma redação durante o "corre-corre" da produção jornalística. "São novas informações surgindo a todo momento, é apuração 24 horas", revela.

 

Reprodução: SBT https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/policia/caso-vitoria-policia-civil-vai-fazer-reconstituicao-do-crime-em-cajamar-sp

        É justamente diante desses casos tão grandes que entra a questão da competição jornalística. Com toda a mídia cobrindo, são milhares de emissoras, jornalistas e veículos de comunicação tentando buscar a última informação e levá-la primeiro à público. Buscar algo exclusivo sobre um caso é buscar aquilo que todo mundo está interessado em saber. Nesse caso, para um jornal se destacar em uma cobertura de um caso como o de Vitória, entram em ação as entrevistas exclusivas, seja com algum produtor, repórter, autoridade ou até mesmo com uma fonte da Polícia Civil. Derick exemplifica essa busca pela exclusividade ao contar que sua emissora deu, em primeira mão, a confissão oficial de Maicol, que até então era o principal suspeito de ter assassinado Vitória Regina. "Trouxe o depoimento, trouxe o vídeo, enquanto aquilo estava ainda na especulação. Então o SBT conseguiu se destacar com exclusividade, na frente de qualquer emissora", relata o jornalista.

          No caso da Vitória, as informações estavam sendo apuradas a todo instante, de forma que os veículos se preocupavam com cada depoimento e com cada confissão realizada. No caso da Record, o jornal se destacou por ter sido o primeiro a noticiar o caso, o que garantiu maior notoriedade para a jovem. Reinaldo Gottino, jornalista e apresentador do Cidade Alerta, conta como foi esse processo: "O fato de a gente ter dado atenção ao caso, entrando primeiro que todos, nos jogou uma condição de ter uma cobertura mais ampla e com mais informações, porque a gente já sabia do que se tratava."

           Mas diante de tanta informação e exposição, como a cobertura jornalística lidou com as mentiras? No início das investigações, a própria polícia encontrava dificuldades com depoimentos, porque algumas pessoas mentiam, o que atrapalhou o trabalho dos oficiais e dificultou a apuração de dados e detalhes. "Quando a polícia descobre uma mentira no depoimento, aquela pessoa passa automaticamente a ser uma suspeita, porque a polícia acha que ela está tentando esconder alguma coisa. Na verdade, eram pessoas que mentiram porque não conseguiam justificar estar em outro lugar", comenta Gottino.

Reprodução: Record https://record.r7.com/cidade-alerta/video/caso-vitoria-policia-pede-reconstituicao-do-crime-para-o-iml-24032025/

         É claro que, no jornalismo, independentemente do assunto, não há espaço para erro e informações equivocadas. Mas isso vale, principalmente, quando se trata de vidas e memórias de pessoas reais. Rafael Saldanha acredita que "não é porque um feminicídio teve mais repercussão do que outro que ele vale mais". Ele ainda ressalta que os jornalistas, enquanto formadores de opinião, precisam lidar da mesma forma com todos os casos, independentemente da atenção dada pela imprensa ou pelo público.

          No contexto do feminicídio, a cobertura jornalística se firma não somente como uma ferramenta de informação e conscientização, mas também como um ato de memória e de resistência. Relatar essas histórias na mídia é, ao mesmo tempo, denunciar uma realidade cruel do país e reafirmar que todas as vidas perdidas não serão esquecidas ou reduzidas a dados quantitativos.  Cabe somente ao jornalista priorizar a informação ao invés do sensacionalismo.

            Em cada veículo jornalístico, existe um manual de padronização que segue algumas regras, como os jornalistas falaram dos cuidados ao noticiarem o caso de Vitória. Mas até que ponto é possível seguir todos esses passos? O caso da Vitória foi um exemplo de que ser fiel a todas essas normas nem sempre é possível. Com a busca por uma grande audiência, algumas matérias foram mais sensacionalistas, o que evidencia o constante conflito entre a ética jornalística e a pressão recebida pela audiência. Isso mostra que, embora os manuais de redação sirvam como guias, na prática, fatores como a corrida entre os veículos jornalísticos e o apelo emocional da história comprometem a aplicação dessas normas. O caso da Vitória expõe justamente esse limite, ou seja, o desafio de equilibrar a responsabilidade necessária na cobertura de um caso tão delicado, com a pressão de um mercado jornalístico cada vez mais competitivo. 

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