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Qual o papel do jornalista?

     Diante de tantos relatos, números alarmantes e exemplos de cobertura midiática, a reflexão final que se impõe é sobre o papel social do jornalismo diante de como é a cobertura do feminicídio no Brasil. A responsabilidade da imprensa vai muito além da entrega da notícia: deveria tratar de um compromisso ético com a memória das vítimas, com o direito à informação da sociedade e com o combate a uma cultura que, estruturalmente, naturaliza a violência contra a mulher.

   Como vimos ao longo desta grande reportagem, a forma como as histórias são contadas interfere diretamente na percepção coletiva sobre esses crimes. Quando a cobertura é sensacionalista, quando a vítima é desumanizada e o agressor ganha espaço para justificar seu ato, o jornalismo se distancia de seu propósito que seria informar com responsabilidade. Pelo contrário, colabora para reforçar estereótipos, alimentar julgamentos morais e revitimizar mulheres.

      A escolha da narrativa é feita com as imagens, as palavras, as fontes ouvidas e os enquadramentos. As escolhas levam cada matéria para diferentes intenções ao serem publicadas, e isso precisa ser feito com consciência crítica. O que podemos entender é que é possível, sim, informar com precisão sem transformar a dor em espetáculo.

     A jornalista Bárbara Libório destaca que a mídia ainda enfrenta muitos dilemas quando trata desses casos: "A gente ainda não tem uma cobertura de feminicídio, pela imprensa tradicional, como ela de fato poderia e deveria ser. [...] Muitas vezes, vemos a mídia tratar muito mais da punição do agressor do que da história da vítima. E o que importa, mais do que a punição, é que essa agressão não aconteça." Para ela, retratar essas mulheres sem revitimização e de forma humanizada é um passo essencial para que a sociedade compreenda a gravidade da violência de gênero como um problema urgente e que não se resolve apenas com o encarceramento, mas com políticas de prevenção e com a escuta ativa das vítimas.

       Ao reconhecer esse papel de transformação da mídia, compreendemos que cada matéria publicada, cada reportagem exibida e cada entrevista concedida são ferramentas que podem tanto perpetuar a violência quanto ajudar a combatê-la. Cabe aos jornalistas e aos veículos escolherem de que lado querem estar, seguindo pela lógica de cliques ou pela informação do crime.

       Tanto na mídia impressa quanto na digital, já existem diversos manuais que orientam a cobertura de feminicídios. Um exemplo é o Manual Universa, do UOL, que trata desde condutas gerais até a construção da reportagem. O documento reforça a importância de indicar caminhos para denúncia, prevenção e acolhimento das vítimas.

     O manual também destaca o cuidado com a linguagem. Um exemplo é o uso correto da palavra "estupro" quando for o caso, evitando eufemismos que minimizem a gravidade do crime. Como afirma o texto: "É dever da mídia não atenuar os crimes e sensibilizar a sociedade para a gravidade do problema. Estupro não é sexo. Por isso, nunca escreva frases como 'o ato sexual aconteceu na casa da vítima'."

          Assim como o UOL, outros veículos também possuem manuais específicos para tratar de temas como o feminicídio. No caso do AzMina, o veículo: "participou da elaboração do guia de boas práticas na cobertura da violência contra a mulher, da Universa (UOL)", o que exige responsabilidade e sensibilidade. No entanto, surge a dúvida: será que, mesmo com toda essa estrutura, o jornalismo realmente segue essas diretrizes?

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