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IMAGEM DE FUNDO - Mulher com a mão para frente assustada.jpg

Histórias antigas que deixam cicatrizes

          Em 2024, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde a promulgação da Lei do Feminicídio em 2015, o que significa que, nitidamente, uma lei não resolveu essa problemática estrutural. Em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 17 horas no país, totalizando 1.459 casos só no ano passado, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). São números que, embora frios, escancaram a urgência de se tratar o feminicídio não como um "crime passional", mas como uma consequência direta de uma cultura estruturalmente machista e de um Estado que falha sistematicamente na proteção das mulheres. Mais que meras estatísticas, são vidas interrompidas e histórias que, quando chegam à grande imprensa, nem sempre são contadas da forma como deveriam.

Índice de letalidade da violência contra as mulheres

          Essa realidade, que insiste em se repetir, encontra ecos em casos emblemáticos que marcaram o país. Vamos voltar à morte de Eloá Cristina Pimentel. O caso já foi citado, a jovem foi assassinada aos 15 anos pelo ex-namorado, após quase 100 horas de sequestro em um apartamento. A tragédia teve uma cobertura jornalística intensa e contínua, principalmente pela TV, um dos recursos que permitiam maior alcance na época, com destaque para a Rede Globo, a Record e a Band, que transmitiam o cerco policial em tempo real, 24 horas por dia.

        O episódio marcou profundamente a história da cobertura jornalística no Brasil. Durante mais de quatro dias, os noticiários acompanharam cada movimento da polícia, transmitiram imagens ao vivo da janela do apartamento e chegaram ao ponto de realizar entrevistas com o próprio sequestrador durante o cárcere. Em um dos momentos mais criticados pela imprensa especializada, a repórter da TV Record, Ana Paula Neves, conversou com Lindemberg por telefone enquanto ele ainda mantinha Eloá e Nayara como reféns. A exposição midiática não só contribuiu para alimentar o espetáculo em torno da tragédia, como também interferiu na condução do caso. Segundo especialistas em segurança, o sequestro poderia ter sido resolvido com mais rapidez e segurança caso houvesse menos pressão e interferência da mídia.

       Hoje, quase duas décadas depois, o nome de Eloá ainda simboliza um marco doloroso, não apenas pela brutalidade do desfecho, mas por tudo que o antecedeu e o cercou. O caso expôs não só o despreparo institucional para lidar com a violência de gênero, como também evidenciou o papel da sociedade, incluindo a imprensa, na manutenção de um ciclo de silenciamento e romantização da violência. Para as jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, o que permanece invisível em muitos desses crimes são justamente suas causas estruturais. "Feminicídio não é um crime de fúria, nem um crime passional. Ele é o resultado de uma cultura que autoriza os homens a matarem quando perdem o controle sobre a mulher", explica Vanessa.

            O cenário atual mostra que a rede de proteção continua frágil. Mesmo mulheres que denunciam seus agressores, como aconteceu com a juíza Viviane Vieira do Amaral, assassinada em 2020, ou com Genilde, trabalhadora doméstica morta no interior da Bahia no mesmo ano, não conseguem escapar do ciclo da violência. As autoras também destacam a comoção seletiva e a escolha editorial de cada veículo que marcou esses casos: enquanto a morte de Viviane, uma juíza branca, gerou repercussão nacional, o assassinato de Genilde sequer saiu nos portais locais. Niara pontua que o feminicídio não é um crime que atinge apenas determinadas mulheres. Ele pode acontecer com qualquer uma, mas é mais frequente entre mulheres negras, periféricas e com baixa escolaridade, Evidencia-se nesse ponto, um desequilíbrio e uma desigualdade na cobertura midiática já que justamente as vítimas mais pobres sendo a maioria dos casos desse tipo de assassinato, ganham o menor destaque e repercussão nos jornais e na internet.

        O feminicídio é, na maioria das vezes, o ponto final de uma longa cadeia de violências que come-ça com o controle, o isolamento, os ciúmes e as agressões verbais e físicas. Quase sempre, a mulher já havia pedido ajuda, feito denúncias ou buscado proteção. O avanço legislativo com a Lei Maria da Penha, em 2006, e a Lei do Feminicídio, em 2015, foi importante, mas não tem sido suficiente para conter a escalada da violência.

         Comparar o caso Eloá com o de Vitória, por exemplo, é perceber que, apesar da distância tempo-ral, a estrutura da cobertura ainda preserva vícios antigos. Embora Vitória tenha sido retratada em diversas reportagens como vítima de um feminicídio brutal, algumas abordagens midiáticas ainda tratam o episódio como uma fatalidade, dando espaço à narrativa que traz a mulher como vítima antes de trazer o homem como agressor.

          É possível identificar isso na própria maneira como os casos são retratados nas manchetes na maioria dos jornais. A mulher sempre foi "encontrada morta", "foi morta" ou "morreu". Contar as histórias dessa forma, vitimizando a mulher, é uma maneira estrutural de jogar o foco narrativo na mulher e desviar do homem que cometeu o crime. A história nunca começa com quem matou, nunca com o homem que cometeu um crime e sim com a mulher que morreu. Entretanto, a vítima não morreu de repente, por isso, quem a matou deveria ser o princípio das narrativas, segundo as escritoras do livro Histórias de morte matada contadas feitos morte morrida: A narrativa de feminicídios na imprensa brasileira. 

          Assim, romper esse ciclo de silenciamento, estigmatização e espetacularização que recai sobre as víti-mas também é uma forma de lutar contra o feminicídio, além de criar uma nova maneira de se fazer a cobertura jornalística, com menos espetacularização, e mais fatos e verdades.

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