

Linha do tempo
Pensar em feminicídio pode significar, para uma parte da população brasileira, pensar em algo banal e comum, já que todos estamos sujeitos à morte. O que torna a situação mais complexa e mais curiosa é que esse tipo de homicídio não é uma morte qualquer. Ainda que possa ser fruto de um impulso, na maioria das vezes é um caso pensado, planejado e executado com um alvo bem definido: uma mulher.
Antes de se pensar em quem se mata, é preciso pensar no porquê se mata. Existem hoje diferentes ti-pos de feminicídio que podem estar ligados ao ódio ao gênero feminino, a questões políticas, religiosas ou culturais, à violência sexual ou até mesmo a eventos que acontecem dentro de casa. Esse é o caso não de um assassinato, mas de uma das mais famosas tentativas de feminicídio da história brasileira. Em 1983, Maria da Penha levou um tiro nas costas do próprio marido enquanto dormia, Marco Antonio Heredia Viveiros. A jovem sobreviveu à tentativa de homicídio e se tornou um símbolo da luta por mulheres que passaram por situações parecidas ou que não sobreviveram à investida do agressor.
A mídia sempre está ao pé dos fatos, e em casos como o de Maria da Penha não é diferente. Sempre noticiando os eventos com feminicídio e acompanhando as investigações, o jornalismo anda com a polícia atrás de seu bem maior: a informação. Como já mencionamos aqui, os redatores devem estar atentos a duas coisas na hora da cobertura do caso: o sensacionalismo e a espetacularização. Um desvio do princípio jornalístico de informar fez, em 1976, as notícias do assassinato de Ângela Diniz transformarem o ocorrido em uma verdadeira final de Copa do Mundo. No penúltimo dia do ano, Ângela foi morta a tiros por seu namorado em sua casa de praia, localizada em Búzios, no Rio de Janeiro. Segundo o relato da jornalista Branca Viana no podcast "Praia dos Ossos", durante as investigações, muitas pessoas ficaram bem divididas entre a defesa da vítima e de Doca Street, o assassino da socialite, e em cima disso, o jornalismo fazia alarde, com rádio, TV e o impresso, todos mobilizados até e o dia do julgamento.
Link do podcast "Praia dos Ossos"
A construção da narrativa em volta do caso se tornou um problema frequente anos depois, em 2002. Aos seis anos de idade, Isabella Nardoni foi jogada da varanda de um apartamento pelo pai e pela madrasta no Tucuruvi, um bairro da Zona Norte de São Paulo. Ainda que seja uma criança, estamos falando do assassinato de uma menina, o que pode, sim, ser considerado feminicídio. O fato ganhou uma repercussão com um apelo bem sensacionalista por parte dos jornais que cobriram a situação, ainda mais pelo fato de ser um pai matando a própria filha.
Foto: reprodução da matéria da Folha S.Paulo de março de 2008 sobre o caso Nardoni
Um pai matar a própria filha... Alguns casos são difíceis de se imaginar e parecem até irreais, saídos de filmes ou séries de televisão. É justamente com essas características que surge mais um episódio de violência contra a mulher, com sequestro, ameaças e morte em 2008. Lindeberg Alves manteve como reféns em um apartamento em Santo André, no ABC Paulista, Eloá Pimentel e a amiga Naiara Rodrigues. Cinco dias depois de muitas sirenes da polícia, negociações e câmeras da TV, Lindemberg matou Eloá, aos quinze anos de idade, e acertou o rosto de Nayara com as balas de sua arma.
Em grandes coberturas jornalísticas como essa, está aliado ao sensacionalismo a exposição excessiva da vítima. Esse foi o caso de Eliza Samudio, uma morte cercada de mistérios, segredos e ameaças envolvendo um dos maiores goleiros da época: Bruno Fernandes, do Flamengo. Este episódio envolveu o sequestro e a morte da jovem de apenas 25 anos em 2010 e, até o momento da escrita desta matéria, o corpo da vítima não foi encontrado. O caso da jovem, que estava grávida do jogador na época de seu desaparecimento, foi investigado por mais de um ano até que a polícia descobrisse que ela foi esquartejada.
Foto: reprodução de manchete do caso Eliza do Portal G1
Ao longo da cobertura, era comum que a mídia usasse termos pejorativos e julgadores para se referir à Eliza, acobertando e aliviando o lado do goleiro.
Como já ficou evidente, muitos casos de feminicídio têm origem a partir de términos de relaciona-mentos ou por conta de algo que aconteceu na relação. Mais uma vez, a mídia brasileira retratou a morte de uma jovem por esses mesmos motivos no início deste ano. Vamos agora então para o dia 26 de fevereiro de 2025, à meia-noite. Vitória Regina estava voltando para casa a pé do ponto de ônibus quando foi sequestrada. Uma semana depois de muitas buscas e diversos suspeitos, a menina é encontrada morta, com seu corpo já em um estado avançado de decomposição, em um sítio na cidade de Cajamar, no interior de São Paulo.
Um mês após mistérios e interrogações, Maicol, o ex-namorado de Vitória, se declara culpado pelo assassinato da garota. Assim como em todos os outros casos de feminicídios aqui narrados, o jornalismo se manteve atento a todos os detalhes, a todos os suspeitos, entrevistando a família e amigos da vítima e estando ao lado da polícia nas investigações. Mas quando essa presença do jornalismo se torna invasiva para a privacidade dos conhecidos da jovem? E o sensacionalismo? O apelo para o exagero vem somente para puxar a audiência de um acontecimento que, por si só e pelo seu tom de suspense e mistério, já não atraía o público?

