
Os desafios da cobertura jornalística
"Exclusivo. Roberto Cabrini confronta o homem apontado como assassino da jovem Vitória Regina". Ao som de uma música tensa, Carolina Ferraz aumenta o suspense a cada palavra no início de uma reportagem sobre o caso, exibida no Domingo Espetacular no dia 1º de maio de 2025, pouco mais de dois meses após o assassinato de Vitória, no dia 26 de fevereiro. A matéria entrega a quebra de silêncio de Maicol, o homem preso por matar a jovem, em uma entrevista definida por Cabrini como "tensa e reveladora".
Enquanto o assassino fala pela primeira vez na frente das câmeras, a reportagem também traz, em alguns momentos, imagens de Vitória preenchendo a tela. Essas fotos são retiradas de suas redes sociais (selfies no espelho, fotos em que aparece usando maquiagem e fazendo biquinho com os lábios) e expostas e repetidas em diversas matérias no horário nobre para milhões de pessoas. A escolha dessas imagens, muitas vezes usadas sem contexto e sem cuidado, não é neutra. Ela ajuda a construir uma narrativa que vai além da informação, insinuando, julgando e construindo uma memória da vítima.
Segundo as autoras Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, essa prática é recorrente e reveladora: "capturam muito fotos da vítima de redes sociais e ela está sempre muito sorridente, muito sensual, de batom vermelho. Então, essa foto, ela já também conta uma história, a escolha dessa foto não é à toa, ela também ajuda a compor uma narrativa de culpabilização daquela mulher, também ao como ela era, também ao como ela era coquete, digamos assim, ao como ela era sensual." A imagem escolhida, nesse contexto, funciona como um reforço simbólico de estereótipos, que muitas vezes deslocam a responsabilização do agressor para uma problematização da conduta ou da aparência da vítima.
A cada 17 horas, uma mulher é assassinada no Brasil simplesmente pelo fato de ser mulher, segundo relatório da Rede de Observatórios da Segurança. Em 75% dos casos, o agressor era alguém próximo, sendo um parceiro, ex-companheiro ou familiar. Diante desses números cada vez mais crescentes, a imprensa cumpre um papel fundamental: noticiar, informar e principalmente sensibilizar a sociedade sobre a gravidade da violência de gênero que ainda hoje é tão alarmante no país. Mas como exatamente os veículos jornalísticos têm noticiado e feito a cobertura desses homicídios? A resposta para essa pergunta levanta questões um tanto incômodas para os veículos da grande imprensa e, sobretudo, a respeito do papel da profissão na difusão dessas tragédias.
Historicamente, a cobertura de feminicídios no Brasil tem tentado se equilibrar entre a superficiali-dade e o sensacionalismo. Manchetes que priorizam o choque em vez da informação, manchetes escritas em voz passiva que amenizam a situação, descrições que minimizam a culpa do agressor, muitas vezes colocados como apenas suspeitos, ou atribuem o crime a "crises de ciúmes". Outro fator que revela incômodo na sociedade é a escolha de fotos que reforçam estereótipos sobre as vítimas, constroem uma narrativa rasa e, por vezes, desrespeitosa.
Em 2018, por exemplo, a morte da advogada Tatiane Spitzner foi inicialmente coberta como um "caso misterioso" envolvendo uma queda de sacada. A imprensa só passou a tratá-lo como feminicídio após a divulgação das imagens de agressão e a repercussão pública. A falta de sensibilidade e de conhecimento técnico sobre o crime contribuiu para uma cobertura tardia e enviesada.
Por outro lado, há também exemplos de coberturas que buscam uma abordagem mais ética e respei-tosa. Em 2022, o caso de Mariana Ferrer revisitou uma cobertura que evoluiu com o debate público sobre violência institucional contra mulheres. O veículo AzMina buscou um enfoque crítico, com análise do sistema de Justiça, contextualização do machismo estrutural e espaço para a voz da vítima. Esse exemplo mostra que é possível informar com profundidade, contribuindo para a construção de um jornalismo que não apenas busca o furo.
A jornalista Bárbara Libório, diretora estratégica do veículo AzMina, relata como é cobrir casos que envolvam feminicídios em um portal independente e conta como é a narrativa que o veículo entende como correta para relatar esse crime. "É realmente tratar o tema da violência de gênero como algo que não é pontual, que não é isolado, que não é episódico. É uma cobertura sobre mulheres, e sobre a violência que essas mulheres sofrem, e sobre os novos mundos que a gente gostaria que existissem. Eu costumo dizer que são outros critérios de noticiabilidade, são outros valores de notícia, que são valores de notícia muito mais voltados à educação da sociedade, à prevenção da violência, do que simplesmente noticiar fatos que vão gerar cliques."
A forma como se noticia um feminicídio importa e muito. Quando a narrativa jornalística ignora o histórico de violência sofrido pela vítima, omite a ineficácia das medidas protetivas ou retrata o agressor de maneira que traga um sentimento de empatia pelo criminoso e revitimize famílias. É preciso repensar o papel da imprensa, o jornalismo deve ser ferramenta de denúncia, não de espetáculo, e como futuros profissionais da área, buscamos entender sobre essas coberturas para compreender o que está por trás da escolha de cada palavra em uma matéria.
